Eu me desfiz, da madrugada pra cá. Eu respirava e nada vinha. Senti que meu quarto tinha um cheiro ruim. Era rancor. A fragância não me fazia bem e eu sabia que não importava quantos banhos eu tomasse, seria impossível ficar limpo novamente. Limpo igual quando eu tinha uns 7 anos de idade e percebi que estava vivo. Que de alguma forma meu corpo era diferente e eu só percebi quando um tio meu disse que meu cabelo era ruim e que seria melhor eu fazer que nem ele e cortar. Minha mãe insistia em me levar no salão, meu irmão mais velho também. Passavam xampu no meu cabelo e eu ficava limpo. Ficava feliz. Um dia, virei sansão e cortaram meus cachinhos. Foi alí que provavelmente eu morri. Mas não importava. A madrugada está a pino. Dizem que antes de clarear ela fica mais escura. Talvez seja o momento ideal para eu me banhar. Dessa vez eu não quero água. Queria que me pedissem perdão pela violência, mas de verdade, não sinto que adiantaria...